Mídia 3: paradigmas da interação nas mídias computacionais


Working paper da pesquisa em estética da interação no laboratório de pesquisa em ambientes interativos

O entendimento do que significa o termo “interação” é aberto. Tão aberto e polissêmico quanto todos os demais termos em qualquer língua verbal. É muito difícil tratar de distorções ou mal-usos deste, ou de outro termo, quando não há uma maneira certa ou errada de serem apreendidos e consequentemente utilizados em nossas formas de nos comunicar. O termo não pode ser encarado, portanto, como uma propriedade daqueles que discutem as mídias computacionais para que determinem seu real significado. Isto pode soar como algo absolutamente óbvio, mas a disputa sobre o que é a real interação, ou o que é realmente interagir com alguma coisa, é um campo de batalha para estudiosos destas mídias em seu esforço para encontrar definições mais apuradas desta prática, e/ou novos conceitos para inová-la.

hand

A primeira questão que precisa ser esclarecida, antes mesmo de discutir-se a interação circunscrita às mídias computacionais, é que o interagir não é uma exclusividade deste tipo de mídia. A premissa de que as mídias ontologicamente interativas são as de orgiem computacional, é equivocada: toda mídia é interativa. A televisão e o rádio podem parecer, à primeira vista, como meios de comunicação de mão única, onde não há qualquer forma de feedback fechando a relação comunicacional, mas isso não é totalmente verdade; tanto as pesquisas de audiência (como o Ibope, no Brasil) fornecem este feedback, quanto a manifestação espontânea desta audiência ao entrar em contato com veículos para manifestarem sua visão, através de cartas, telefonemas, visitas, dentre muitas outras maneiras. Atualmente, programas televisivos e programas de rádio permitem que a audiência participe de alguma forma de suas atividades, desde uma plateia presente durante o processo de gravação (quando não falamos de uma transmissão ao vivo), até a participação por telefone ou links externos. De uma forma ou de outra, mesmo os meios de comunicação massivos encontram formas para que a interação exista entre emissor e receptor.

Além desta forma mais literal de interação, podemos considerar que um jornal, uma revista, ou mesmo um livro, também são meios interativos. Poderíamos dizer que os leitores de jornais ou revistas enviam cartas às redações manifestando suas reações às matérias publicadas — algo equivalente ao que descrevemos sobre o rádio e a televisão — mas esta não é a única forma de interação presente; a própria leitura estimula a reflexão, a imaginação ou o devaneio onírico, que são formas de interação com um mundo simbólico — consigo próprio — de forma intersubjetiva. A arte, mesmo quando falamos de um quadro renascentista, promove este tipo de interação: não ficamos passivos frente a uma peça que nos emociona, nos provoca, ou simplesmente nos põe à pensar.
Ler

  

Mídia 2: Powepoint e o fast-food da educação


Em um artigo recente da Business Insider UK, Paul Ralph critica o uso da mídia Powerpoint em sala de aula, ao ponto de afirmar que este tipo de mídia deveria ser banida da universidade. Esta questão tem me preocupado por algum tempo por algumas razões: em primeiro lugar, tenho gasto um tempo considerável preparando material neste formato para minhas próprias aulas; apesar de serem “meramente” slides, tenho me dedicado a produzir um material visual bastante sofisticado para facilitar o processo de compreensão de conceitos complexos. Em segundo lugar, muitos colegas e amigos tem compartilhado este e outros artigos criticando a “mídia Powerpoint”, e, apesar de concordar com muitas das questões, ponho em questionamento vários dos argumentos apresentados. Em terceiro lugar há a questão da crise em que vivemos na “indústria educacional”, principalmente as dificuldades em se lidar com alunos que não possuem mais a capacidade de concentração e atenção de outrora, e, finalmente, a continuidade desta “cultura do Powerpoint” adquirida na universidade e passada adiante na esfera das práticas produtivas. Tentarei discutir estas questões pontualmente:

corporate man

O trabalho de se produzir um bom material de apoio
Já na década de 90, durante meu bacharelado, professores utilizavam materiais de apoio produzidos com folhas de acetato projetadas nas paredes das salas com o uso de projetores de luz. Claro, não é por que meus professores faziam isso que a prática deveria ser considerada boa.
Ler

  

A boa interação não está sempre relacionada à simplicidade


Reflexões sobre a Psicologia da Interação

Texto originalmente publicado em inglês no medium.com em 26 de Agosto de 2013.

O que sabemos sobre a usabilidade e as noções fundamentais para se projetar interações são, em quase sua totalidade, conhecimentos provindos do campo da engenharia de usabilidade. Como se sabe, engenheiros não são (todos) treinados para compreender pessoas.

Quando falo isso não tenho a intenção de desrespeitar ou desqualificar as diversas contribuições oriundas dos trabalhos de Interação Homem-Máquina (HCI), já que elas são absolutamente fundamentais para o que realizamos hoje em interação, mas é preciso reconhecer os limites do campo de HCI para a ciência da interação, e a necessidade de seguir em frente ao se criar mídias interativas cada vez mais confortáveis e ajustadas aos usuários.

we are the robots

Outra questão que também parece ser preciso considerar é que uma boa usabilidade não significa, necessariamente, um uso mais prático para as coisas. Nos acostumamos a usar objetos e mídias de certas formas, mesmo quando estas formas não são a maneira correta ou a maneira mais simples (nem sequer nos dois casos juntos). O uso se torna um hábito, e passa a significar algo para quem usa. Por esse motivo é também muito difícil nos livrarmos dos vícios e práticas quais estamos habituados. Mudança, mesmo quando percebemos que os procedimentos aos quais nos ligamos são irracionais, raramente ocorre. Ler

  

Off-topic 4: O tempo e a incompatibilidade tecnológica


A leitura de um texto publicado no Ars Technica me levou a reflexões curiosas. Nele, o autor foi submetido a estranha experiência de trabalhar por um dia no MacOS 9, predecessor do já antigo MacOS X original. O texto, bastante longo para os tempos em que imperam mensagens de 120 caracteres, se encontra aqui.

quantified time

Algumas das afirmações durante sua leitura são de puro deleite, tais como

“Jony Ive pronuncia ‘aluminum’ da maneira americana, ao invés de ‘aluminium’. O titânio era melhor que o aluminio em 2001, mas aparentemente deixou de ser naquela mesma década.”

“Jony Ive pronounces ‘aluminum’ in the American fashion, rather than ‘aluminium’. Titanium was better than aluminum in 2001, but it apparently stopped being that way later in the decade”.

Falamos aqui de uma diferença de 14 anos, onde obviamente a tecnologia se desenvolveu drasticamente. Talvez a questão pungente não seja o avanço tecnológico em si, mas a forma como, nesse intervalo, uma total incompatibilidade tecnológica foi produzida. Equipamentos perfeitamente viáveis para o trabalho produtivo em 2000 são completamente inúteis em 2014: os supercomputadores de ontem não conseguiriam lidar com os protocolos, as exigências, e a superpopulação de detalhes e requisitos de hoje.

Ler

  

Mídia 1: o que é mídia?


Os paragrafos à seguir são um breve texto norteador sobre o que é “mídia”, produzido para auxiliar na convergência entre diversas disciplinas do Centro Universitário Senac que discutem ou abordam o problema das mídias.

Uma mídia se constitui como um suporte para construção ou troca de sentidos. Não raro, encontramos este conceito utilizado meramente como um suporte físico ou material de algo, ou um objeto através do qual se armazenam informações, em uma redução bastante simplista do papel que ocupa nas relações entre as pessoas, e entre elas e os sentidos circulantes. Uma superfície de qualquer espécie pode ser utilizada como um suporte material, mas torna-se uma mídia quando através dela, algo significante se torna um elo entre os sujeitos e seus processos de significação.

mediabrain

Deste princípio, encontramos apropriações mais específicas como a “mídia impressa” que se refere à construção de sentidos e significados através de imagens e textos presentes em papeis e outros suportes físicos possíveis de serem grafados com tinta, a “mídia eletrônica”, a troca social de sentido através de aparatos que exigem por energia elétrica para funcionar, como televisões e rádios, ou a “mídia digital”, que engloba um compêndio de dispositivos computacionais quando utilizados com este mesmo propósito. Ler

  

Copyright ©2014, Guilherme Ranoya